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Violência contra a mulher - uma reflexão sobre a importância de educar meninos

Marina, mãe de Bruna, 6 anos: “Quando penso na adolescência de Bruna fico me perguntando: será que vai chegar o dia, em que não precisarei dizer à minha filha que tome cuidado ao sair, que procure não andar desacompanhada na rua, à noite? Embora ache isso absurdo, tenho que pensar na realidade que vivemos”.

 

Estela, mãe de Caio, 6 anos, passava pela sala quando seu filho, acidentalmente, levantou seu vestido com a espada que estava brincando. Ela se voltou para ele e, delicadamente, perguntou se havia percebido o que aconteceu. Ele acenou com a cabeça que sim. Então ela lhe disse: “Filho, sei que não foi de propósito, mas nunca se deve levantar a saia de uma mulher sem o consentimento dela”.

 

Essas duas falas aconteceram exatamente, na semana em que, na audiência, a vítima, Mari Ferrer, foi desrespeitada, assediada e culpabilizada pelo advogado de defesa do rapaz suspeito de tê-la estuprado. Já o réu foi absolvido, porque o juiz considerou não haver provas de que houve intencionalidade de estupro. 
 

Sim, infelizmente, ainda não podemos deixar de alertar nossas filhas quanto aos cuidados e atenção que devem ter, por exemplo, ao andar sozinhas à noite, com ou sem short curto, para se protegerem, pelo simples fato de serem mulheres. Mas também, precisamos ensinar a elas que, embora tenham que tomar os devidos cuidados, a culpa NUNCA, será delas, caso sofram QUALQUER manifestação masculina que contrarie a sua vontade. Que sempre devem exigir respeito. Cobrar da sociedade que agressores sejam punidos, e não justificados.

Porém, um outro lado deve ser discutido  e observado: temos que cuidar e ficar atentos à educação dos nossos meninos.

 

Muitas mães e pais reproduzem padrões machistas, às vezes sem perceber, na educação de seus filhos. 

Quem nunca ouviu frases do tipo: “ prenda suas cabras que meu bode está solto”, ou “que delícia de comida! Já pode casar!”

 

Ou mães e pais que não deixam os meninos ajudar nos afazeres domésticos e pedem tudo para as meninas, alegando que é importante que elas aprendam a cuidar da casa.

 

Pode ser difícil perceber claramente, mas a mensagem subliminar é: meninas devem se preparar para cozinhar, cuidar da casa e que os meninos (bodes) não têm responsabilidade, caso desrespeitem uma menina (cabra).


Para que situações como essas não aconteçam é necessário que a mãe tenha a consciência do lugar em que a mulher é colocada no universo machista e do desrespeito vivido por todas nós. E que o pai seja exemplo e reafirme, através de suas atitudes, uma postura de respeito e admiração pelas meninas e mulheres que o rodeiam.


Aos meninos deve ser ensinada a parceria e o respeito às mulheres.

 

Como tudo em educação, não é necessário abrir uma solenidade para conversar com os filhos sobre respeito, amor, empatia ou cuidado com o outro, principalmente quando esse outro for uma menina.


Isso pode e deve acontecer dentro do contexto, nos momentos vividos, na simplicidade do dia-a-dia, como fez Estela. Basta ter olhos para ver. 


Limites e regras devem ser dados com afeto. De nada adiantaria dizer, a mesma coisa que Estela falou a Caio, aos berros ou desrespeitando a criança. Se estamos ensinando respeito e cuidado com o outro devemos demonstrar o mesmo por nossos filhos.

 

Caio será um homem, um dia e, muito provavelmente, terá internalizado esse ensinamento. Saberá se relacionar com uma mulher, conforme sua mãe lhe ensinou, e repassará esses valores para seus filhos, que passarão para seus netos e bisnetos...


Acredito que as transformações só acontecem através de um processo de conscientização, que se multiplica através da educação, dentro de cada relação, de cada família e do nosso entorno próximo.

 

Mães e pais de meninos carregam a enorme responsabilidade de educar seus filhos para amar e respeitar uma mulher, e não para exercer uma relação de poder com ela.
 

Como diz Jung, psiquiatra suíço do início do século XX, o oposto do amor não é a raiva. É o poder. E onde há relações de poder não existe espaço para o amor.