O Gambito da rainha - a fama e a invisibilidade de Elisabeth Harmon

CONTÉM SPOILERS 
 
Estamos nos anos 50. Elisabeth Harmon é uma menina que foi criada sem pai, pela mãe, uma mulher com graves problemas psicológicos. Viveu em um ambiente instável e inseguro . Aos 9 anos de idade sua mãe se suicida, e ela é encaminhada para um orfanato.
 
A menina, sozinha e paralisada pelo trauma, é recebida burocraticamente pela diretora da instituição. A mulher lhe dá um uniforme e, friamente, avisa que o vestido que está usando, que havia sido bordado por sua mãe, será queimado. Sua dor, seu medo e sua insegurança são totalmente desconsiderados, e não há um único gesto de acolhimento com a criança que acabara de viver uma tragédia. 
 
Nesse momento acontece com ela o que ocorre com qualquer criança institucionalizada: perde a sua individualidade e torna-se invisível em sua singularidade. É, apenas, mais uma entre tantas crianças do orfanato.
 
A solidão de Beth é evidente desde o início da série. 
 
Sabemos o quanto é importante para o desenvolvimento saudável da personalidade de uma criança, o espelhamento, o olhar amoroso e empático, o acolhimento de seus sentimentos e emoções, e um lar estável e seguro.

Nada disso foi dado a ela antes, e é quase impossível que encontre qualquer uma dessas atitudes na instituição.
Além de uniformizadas, as meninas eram obrigadas a tomar comprimidos para “ficarem mais calmas”; na verdade, para evitar que sentissem ou expressassem o que lhes passava internamente. Assim começa a dependência de Elisabeth por remédios. 
 
Certo dia, a pedido da professora, vai ao porão limpar o apagador e conhece o zelador, o sr. Shaibel, um senhor meio carrancudo, que está jogando xadrez. A menina fica muito curiosa e interessada pelo jogo e pede a ele que a ensine. Ele titubeia, mas começa a ensiná-la diariamente. Logo percebe o talento e a inteligência de Elisabeth. O sr. Shaibel foi a primeira pessoa que a enxergou de verdade.
 
Um novo mundo se abre para a menina. Um lugar onde existe o xadrez, mas também, a construção de uma relação de amor e amizade. Com o jogo passa a se refugiar em um universo à parte de sua realidade.

Nos momentos em que não estava jogando, anestesiava-se com os comprimidos, conseguidos clandestinamente com Jolene, a única amiga que fez na instituição, além do sr. Shaibel. Acredita que sua genialidade e seu talento para o xadrez veem dos remédios e que sem eles não conseguiria jogar, pois, enxergava jogadas e estratégias geniais ao tomá-los.

Beth e Jolene conversavam sobre como seria difícil serem adotadas, porque eram mais velhas e, pior, que a amiga teria ainda menos chance por ser negra. De fato, aos 13 anos, Elisabeth é adotada por um casal.
 
Logo depois da adoção o pai adotivo vai embora de casa, abandonando mãe e filha. A mãe adotiva sofre de depressão e alcoolismo, porém é muito sensível e trata a menina com carinho. Usa remédios, também, os quais Beth compartilha sem que ela saiba.

Começa a participar de torneios de xadrez e se destaca, rapidamente, ganhando fama mundial. Passa a ser conhecida e admirada. 

Exigindo demais de si mesma, busca atender às expectativas de todos e só aceita vencer, afinal, o xadrez lhe dá um lugar no mundo. Tenta, obsessivamente, manter esse lugar, pois é vista, tem valor e passa ser alguém. A enxadrista. 
 
Vemos a transformação da menina insegura e abandonada, em uma mulher poderosa, através das mudanças de corte de cabelo, roupas e maquiagem. Mas essas eram apenas mudanças externas. 

Mostra-se firme, fria e dura, entretanto, essa postura é uma defesa. Está a serviço de esconder a vulnerabilidade, a raiva, a solidão e a angústia que estavam sempre presentes dentro de si. Precisou se fechar para as emoções e manter uma persona rígida para sustentar a própria sobrevivência.

Após a morte da mãe adotiva começa a consumir grandes quantidades de remédios e álcool. Entra em um estado de profunda depressão. Começa a viver uma crise de identidade, questionando para que serve tudo o que faz. Vê seus amigos se formando na universidade e conquistando bons empregos. Não enxerga o valor do próprio talento e não aguenta mais manter a persona da enxadrista genial. Tudo parece perder o sentido. Os amigos tentam tudo para ajudá-la, mas não têm sucesso, apesar dos enormes esforços,  Ela os afasta com sua frieza, sua defesa implacável mas, na verdade, tudo o quer é tê-los por perto.

Beth está aprisionada em sua estória. Identificada com a mãe biológica, teme ser doente como ela. Não consegue lidar com seus sentimentos, tampouco se relacionar com alguém afetivamente. No fundo, sente muito de medo de amar e perder as pessoas que ama, como sempre havia acontecido em sua vida.

Precisa lutar contra a terrível força autodestrutiva que a habita, para crescer e ser quem é de verdade.
 
Para isso, precisa resolver seu maior paradoxo: a fama mundialmente conquistada e a invisibilidade da menina solitária e abandonada. E aqui só existe um caminho: olhar para dentro, enxergar e acolher a sua criança ferida e cheia de medos. Tarefa difícil, especialmente para pessoas que se tornam públicas, famosas e sobre quem são depositadas imensas expectativas. 
 
Certo dia, Jolene vai à sua casa para dar uma notícia triste: o sr. Shaibel faleceu. Encontra Elisabeth em um estado deplorável, mas não a critica, nem a julga. Cuida da amiga, do ser humano que ela é, e não de sua persona pública; e lhe dá o acolhimento que precisa, fica perto e acalma a sua solidão. Faz tudo isso com leveza, sinceridade e amor. 
 
Devolve um livro que roubou de Beth e confessa que fez isso, pois sentiu muita raiva quando ela foi adotada.
 
Jolene é alguém que não se importa em mostrar quem é e o que sente. Fala de seus erros, mas também, de seus desejos e planos para o futuro. 
 
Simbolicamente, tem a função de psicopompo para Elisabeth. Como um guia interior, a conduz a revisitar e se reconectar com sua infância no orfanato e sua criança ferida. Tem início um processo de integração da órfã invisível com a enxadrista conhecida no mundo todo.
 
Elas decidem ir ao funeral e, chegando à igreja, notam que ninguém da instituição está presente para prestar uma homenagem. Fica a constatação de que todos são como “coisas” naquele lugar. Não há vínculos. Não há individualidade. Não há uma só gota de afeto.
 
Ao saírem de lá vão até o orfanato e Beth resolve entrar.  Várias lembranças dolorosas lhe veem à mente. Diferente da menina que era quando chegou lá, tornou-se uma mulher linda, bem vestida e famosa no mundo todo. A diretora a vê e não a reconhece, achando que é uma das internas. Não foi vista mais uma vez. Porém, ao descer ao porão tem uma surpresa: encontra, colados sobre uma parede, todos os recortes de jornais sobre ela e uma foto, que havia tirado com o sr. Shaibel quando era criança. Percebe que ele a acompanhou por todo o tempo que viveu. 

Volta para o carro onde Jolene a esperava e chora pela primeira vez. Rompe suas defesas. Chora por ele, chora de tristeza e de emoção. Entra em contato com sua fragilidade e vulnerabilidade. Naquele momento parece ter compreendido, profundamente, que teve um lugar na vida do sr. Shaibel e que foi amada por ele. Finalmente, começa a ressignificar a sua existência solitária e invisível. 
 
Volta para casa, deixa de beber e tomar remédios. Inicia a caminhada ao encontro com si mesma. Começa a acreditar que a força e o talento estão dentro dela. 
 
Não tinha mais dinheiro, mas precisava ir à Rússia disputar o torneio mais importante de sua vida, com o grande mestre do xadrez. Jolene insiste em lhe emprestar a quantia e Elisabeth decide aceitar a ajuda da amiga. Não está mais sozinha. 
 
Na Rússia joga com os melhores e ganha. Encontra um amigo, jornalista, por quem havia sido apaixonada, que estava lá pra cobrir o torneio. Quando o vê demonstra uma imensa alegria por encontrá-lo e lhe dá um abraço forte e cheio de carinho. Conversam longamente. Elisabeth abre-se com ele, expressa e revela seus sentimentos e, dessa forma, atualizam a forte amizade que nutriam um pelo outro. Ao expor as suas emoções, Elisabeth, tira a menina solitária da invisibilidade. 
 
Naquela noite dorme sem calmantes, com o amigo ao seu lado, velando o seu sono. Pela manhã, os amigos ligam dando-lhe dicas de estratégias para o jogo final. Beth os atende cheia de felicidade e, mais uma vez, expressa a sua emoção e alegria. Está acompanhada de todos que a amam e são amados por ela. Finalmente, abre-se para a vida. 
 
Durante a partida com o grande mestre, em um momento decisivo do jogo, ela olha para cima, como sempre fazia quando tomava os comprimidos, e visualiza as jogadas que deve fazer. Sem remédios ou qualquer recurso externo. Somente o seu talento, a sua força e coragem e sua genialidade. Ganha o jogo e é consagrada. 
 
Na cena final desiste de pegar o avião, desce do carro da segurança nacional dos Estados Unidos e caminha livremente por Moscou. Parece estar muito leve. Ao passar por uma praça, onde homens simples e idosos jogam xadrez, é reconhecida e parabenizada por todos. Um deles a convida para um jogo e ela aceita. Era um senhor parecido com o sr. Shaibel.  
 
Essa última cena parece simbolizar o retorno às origens, mas em um outro estágio de desenvolvimento da consciência. Encerra e inaugura um novo ciclo. A menina cresceu e curou suas feridas. A enxadrista se humanizou. E Elisabeth está inteira, agora.

Pode continuar seguindo seu caminho pelos trilhos da individuação.