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Depressão: Combatê-la ou compreendê-la?

Combatê-la ou compreendê-la?

Palavras – Chave: depressão, medicação, tristeza, fragilidade, medo, insegurança, consciência.

Hoje já é consenso que há uma prevalência de casos de depressão em mulheres. Entretanto, penso que esse é um assunto de interesse de todos.

Por esse motivo, gostaria de iniciar este texto com uma reflexão a respeito do que é depressão.

Por definição, trata-se de um conjunto de sintomas que persistem por duas semanas ou mais. Esses sintomas são:

 Irritabilidade

Humor deprimido

Dificuldade de concentração

Distúrbios do sono (excesso ou falta de sono)

Distúrbios alimentares (comer muito ou ficar inapetente)

Falta de perspectiva

Vontade de chorar, muitas vezes, sem motivo aparente.

Pessimismo e desânimo

Falta de prazer

Desejo de morrer

 Vale lembrar que os sintomas podem não se apresentar simultaneamente nem durante todo o tempo, ou seja, pode haver fases de intermitência. Esse é um aspecto importante a ser ressaltado, pois muitas vezes a pessoa tem uma melhora por um ou dois dias e passa a achar que está bem e, o que é pior, acaba entendendo que essa oscilação de humor faz parte de sua personalidade.

Contudo, gostaria de ampliar um pouco nossa reflexão, pois há uma questão que tem me preocupado muito atualmente:

Seguindo apenas esses critérios para avaliar se um indivíduo está deprimido ou não, será que não estamos correndo o risco de generalizar ou mesmo banalizar a dor e o sofrimento, que são sentimentos naturais da condição humana?

Penso que sim, e que devemos tomar muito cuidado com isso.

Estamos vivendo em um tempo no qual o pragmatismo e as soluções rápidas são altamente valorizados. No caso de tratamentos para depressão isso se reflete no uso quase automático de medicamentos. Isso, por um lado, nos dá uma sensação de eficiência, que muitas vezes é real, mas que por outro, nos faz esbarrar em métodos superficiais que, se olharmos mais profundamente, podem estar a serviço de nos distanciar de conflitos e sentimentos necessários de serem vividos.

O que me parece estar acontecendo é que atualmente vivemos um “culto à alegria e à felicidade”, como uma tentativa de extirpar da consciência e da vivência pessoal, sentimentos difíceis de lidar ou mesmo admitir. Então, chamamos tudo de depressão e entendemos que todos os casos devem ser medicados!

Não estou com isso querendo dizer que sou contra a medicação! Muito pelo contrário. Acredito que devemos lançar mão de todos os recursos que possuímos para lidar com o sofrimento. Acho apenas que devemos ter cuidado e respeito com a dor e as necessidades de cada pessoa.

Até porque, nem sempre um estado depressivo pode significar uma doença passível de medicação. É necessário investigar qual o momento de vida em que a pessoa se encontra, se houve alguma perda, mudança brusca, se existe alguma doença física, se já se sentiu assim em outros momentos da vida, enfim, levar em conta a sua história, o momento atual e seus recursos internos.

Não há como generalizar, já que cada um de nós é um ser único, que enxerga, ouve, sente e reage aos acontecimentos da vida de acordo com a própria subjetividade!

Existe uma diferença, que tem ficado cada vez mais sutil, entre a tristeza e a depressão.

A tristeza é um sentimento tão natural quanto a alegria, o amor, o bom e o mau humor, etc.

Não é raro receber em meu consultório, pessoas que se sentem fracas e envergonhadas por estarem “deprimidas”.

Ora, estar triste, ou mesmo deprimida não é um defeito. É um estado que, em geral, traz sentimentos de impotência e fragilidade, mas que pode se revelar muito criativo e necessário de ser vivido, se acolhido e bem tratado.

Embora pareça um detalhe, é essencial não confundir fraqueza com fragilidade. Nem sempre, ao nos sentirmos frágeis, estamos fracos. Em geral, podemos ativar forças profundas e desconhecidas nos momentos em que mais precisamos, isto é, nos momentos em que estamos mais frágeis. Só precisamos torná-las conscientes.

Do ponto de vista coletivo, acredito que temos nos distanciado muito de nossa natureza mais essencial e também, da própria natureza. Vivemos uma vida muito corrida, sem tempo para nos aproximar de nós mesmos. Estamos, na maior parte do tempo, em função das obrigações e, cada vez mais, tiramos o prazer de nossas vidas. A sobrevivência é a única meta a ser percorrida e, na vida de muitos, a perspectiva de futuro é parca. Nas grandes cidades é cada vez maior o stress, o medo da violência e do desemprego, fatores que ativam a insegurança em nosso psiquismo.

Vivemos em uma era tecnológica, globalizada, em que a individualidade e o contato humano estão cada vez mais precários, distantes e sem qualidade. Supervalorizamos os aspectos racionais, em detrimento do afeto, das sensações... Passamos por cima de nossas dores e emoções (boas ou ruins) de forma brutal.

E, como tudo na vida tende a se manifestar, todas estas coisas que guardamos ou camuflamos, encontram voz nos estados depressivos, numa tentativa de fazer com que a pessoa pare, olhe para si mesma, peça ajuda, se acolha, seja acolhida e se depare com a necessidade de mudar, de fazer novas escolhas, de dar atenção a si mesma e ao que lhe falta, de mostrar suas fragilidades, medos e inseguranças, nem que seja para o próprio espelho!

O que observo em minha prática é que se for cuidada, trabalhada e compreendida, a depressão pode vir a ser o início de uma transformação profunda de vida. Em geral, após ter vivido uma situação de crise, a maioria das pessoas sai de uma depressão - quando devidamente tratada e acompanhada por um processo de psicoterapia - muito fortalecida, consciente de seus potenciais, valorizando e vendo graça nas pequenas coisas importantes da vida. E, acima de tudo, com a certeza de que em qualquer situação pode lançar mão dos recursos internos que descobriu em si mesma. Ou ainda, se isto não bastar, que sabe onde procurar ajuda, sem precisar se envergonhar ou se culpar por não estar dando conta de lidar com uma determinada situação, em um determinado momento de sua vida.