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Gentileza: Uma palavra a ser incorporada em nosso “dicionário de atitudes”

Gentileza: qualidade ou caráter de gentil. Ação nobre, distinta, amável. Donaire, garbo, elegância. Amabilidade, delicadeza.

Essa é a definição do dicionário Aurélio para gentileza. Para mim, entretanto, esta palavra agrega outros conceitos e valores, tais como, ética, respeito, educação e capacidade de se colocar no lugar do outro. Sendo assim, toda vez que usá-la no decorrer deste texto, estarei me referindo a esse significado mais amplo.

Mas por que escrever um texto sobre isso? Porque tenho observado o quanto, cada dia mais, essa é uma palavra que se encontra no ostracismo, uma atitude que caiu em desuso, embora me pareça essencial para a convivência e para a manutenção dos relacionamentos e, por que não dizer, da sobrevivência!

Não estou aqui falando da gentileza usada apenas de forma protocolar, mas da capacidade de um indivíduo de ser gentil, genuinamente. Digo isso, pois, atualmente, temos até leis que nos obrigam a praticar atos de gentileza, tais como: banco especial para os idosos nos ônibus, filas preferenciais nos bancos e mercados, etc. Penso que a necessidade de se criarem leis desse tipo denuncia a nossa absoluta falta de educação e de consciência do que é ser gentil e, sobretudo, do que significa a palavra respeito.

É fato que o mundo tem estado mais amargo, violento e agressivo e incluir a gentileza em nosso “dicionário de atitudes” pode deixá-lo um pouco mais doce e palatável.

Falamos e ouvimos falar o tempo todo do horror que nos causam as atrocidades cometidas por grupos terroristas, criminosos, governos corruptos, mães que espancam filhos, maridos que cometem atos de violência etc., etc., etc.

Indignar-se pelas grandes atrocidades é fácil, mas será que conseguimos olhar para as pequenas maldades que cometemos em nosso dia a dia?

Sim, pois embora tenham diferentes graus e intensidade e sejam - em alguns casos- cometidas sem intenção, podemos ferir profundamente as pessoas que convivem direta ou indiretamente conosco ao brigar no trânsito, berrar palavrões, humilhar os outros, não recolher o cocô do seu cachorro da calçada, jogar lixo na rua, desrespeitar um idoso, gritar com nossos filhos ou maridos... E esses são apenas alguns exemplos de atitudes corriqueiras que traduzem a falta de gentileza.

Nos últimos dias, após presenciar algumas cenas, “tão cotidianas”, de desrespeito e agressão, senti brotar, pela primeira vez, um conflito dentro de mim: fiquei me perguntando se sou eu que estou errada em não ser tão dura ou agressiva e me incomodar tanto com atos desse tipo. Diante do dilema, a resposta veio através da recusa incontestável em vestir uma armadura ou criar uma casca tão grossa que pudesse ferir a quem estivesse próximo a mim.

Não, definitivamente, não! Não creio que tenhamos que nos tornar pessoas grosseiras, bélicas, que tendem a se sentir desafiadas a disputar poder com alguém o tempo todo. Também não acredito que devamos ensinar nossos filhos a se defenderem com agressividade e não penso que sejamos obrigados a agir dessa forma para nos adaptarmos a este mundo!

Não quero dizer, com isso, que devemos perder a capacidade de nos indignar, nem que devemos ser frouxos, passivos ou silenciar por medo de demonstrar uma reação. Muito pelo contrário. Há que se ter muita força e sabedoria para saber calar quando necessário ou saber argumentar com firmeza, sem perder a dimensão do respeito e da delicadeza, ou ainda, saber o momento certo de agir com assertividade e objetividade.

Quem não se lembra do ato do estudante que, na China, se colocou diante de um tanque de guerra, sem nenhuma arma ou ameaça? Atitudes desse tipo exigem segurança e coragem... muita coragem...Segurança das suas convicções... certeza de estar agindo de acordo com seus ideais. Sim, porque ter um discurso pacifista ou julgar as pessoas que são indelicadas é muito simples e, na maior parte das vezes, ineficiente. Difícil e eficiente, mesmo, é ter o discurso e praticá-lo, nas pequenas coisas do cotidiano.

Quantos de nós, após anos de relação com alguém que verdadeiramente amamos, vamos deixando de lado a gentileza e a atenção que nos desdobrávamos em dar no início do relacionamento?

Quantos de nós somos muito mais amáveis com quem não conhecemos, ou com colegas de trabalho do que com nossos filhos e familiares?

Quantos de nós dizemos “bom dia” ou “obrigado” ao porteiro do prédio quando visitamos um amigo ou parente que mora lá, mas esquecemos de cumprimentar quem abre a porta todas as manhãs para nós?

Sim, tendemos a ser mais doces e educados com quem está longe. Esse tipo de gentileza também deve ser preservado, mas precisamos estar muito atentos também às nossas reações frente às diversas pessoas e situações que nos rodeiam.

No início, isso talvez exija um grande esforço, pois a primeira coisa que precisamos fazer é tomar consciência do que nos irrita ou nos enraivece. Essas são reações que fazem parte da natureza humana e, portanto, perfeitamente naturais e esperadas em qualquer pessoa. O problema está na forma de expressar esses sentimentos.

Aprender a ouvir é também outro aspecto que precisamos urgentemente

desenvolver. Muitas vezes, disparamos a falar, a dar ordens, sem perceber que tiramos do outro o direito de argumentar. E, o que é pior, nem percebemos o quanto somos autoritários!

Agir com delicadeza e doçura não quer dizer aceitar tudo o que o outro é ou faz, mas saber colocar limites sem perder a razão.

Até porque, perdemos totalmente a razão quando nos tornamos agressivos ou invasivos. Podemos estar absolutamente certos, os argumentos podem ser legítimos, mas, se não soubermos nos colocar adequadamente, acabamos com todos os nossos direitos frente a qualquer situação. E, certamente, iremos ferir pessoas desnecessariamente.

Acredito que uma das formas de evolução do ser humano seja através da consciência da relação que estabelecemos com o mundo a nossa volta. Isto é, através da consciência de nossas atitudes e do cultivo diário da gentileza e do respeito com as pessoas, com as crianças, plantas, animais, com o lixo, com o trânsito, etc.

Mas, então, como buscar essa consciência e cultivar essas atitudes?

Em momento algum, teria a pretensão de dizer que sei qual a resposta certa para essa questão, tampouco acredito que exista apenas um caminho a ser seguido. Entretanto, penso que há algumas atitudes capazes de nos aproximarem de tornar isso possível:

Olhar para os nossos próprios desejos, mas não apenas para eles.

Aceitar que muitas vezes nossas vontades têm que ser adiadas.

Aprender a lidar com as inevitáveis frustrações que a vida nos impõe.

Levar em conta as necessidades e vontades do outro.

Tentar nos colocar no lugar do outro.

Perceber que cada pessoa é tão importante quanto nós mesmos e que tem o direito de existir e se manifestar.

Compreender que cada pessoa é única e tem o seu jeito de funcionar, de sentir e de viver, não tendo que atender às nossas ordens ou expectativas.

Respeitar regras e limites.

Assumir a parcela de responsabilidade que nos cabe frente às pessoas que nos rodeiam, à rua onde moramos, ao universo em que vivemos.

Fica aqui uma proposta de reflexão e a esperança de que cada indivíduo, a partir da consciência de si mesmo, tente resgatar a capacidade de agir com respeito e gentileza em sua vida. Assim como as sementes se espalham e criam novos frutos, são as pequenas atitudes que formarão a consciência necessária para que possamos deixar um mundo mais justo, ameno e habitável para nossos filhos, netos, bisnetos, tataranetos...