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Sonhos: Qual o caminho para compreendê-los?

Muitos foram os recursos propostos por Jung para a compreensão do funcionamento psíquico. Entretanto, seus estudos sobre o tema e escritos sobre a análise de seus próprios sonhos e de seus pacientes, constituem-se em material de extrema importância quando pensamos no trabalho psicoterapêutico dentro de uma perspectiva analítica.

Sonhos são ocorrências espontâneas, naturais. Fazem parte do curso natural da vida. Manifestam-se através de uma linguagem simbólica e revelam a vida interna do sonhador naquele momento de sua vida. Os sonhos procuram trazer para a consciência conteúdos inconscientes, ou seja, desconhecidos para a consciência.

É importante ressaltar que, quando falamos em linguagem simbólica, não estamos querendo dizer que os sonhos trazem informações disfarçadas ou escondidas. Trata-se de uma linguagem própria do inconsciente, que é diferente da que compreendemos conscientemente. Muitas vezes, um sonho pode conter em si, vários símbolos, com múltiplos significados.

Daí a importância de não se fazer interpretações genéricas sobre as imagens oníricas.Cada sonho, deve ser contextualizado, isto é, ao olharmos para um sonho, devemos pensar em quem o sonhou - qual o seu momento de vida, qual a sua história, para onde aquele sonho aponta na vida daquele sonhador, quais as associações que o sonhador faz em relação às imagens do sonho, etc.

Embora a compreensão de um único sonho possa trazer informações valiosas para uma pessoa, é muito rico, também, observar os sonhos em série e, a partir daí, compreender seus significados.

Segundo Jung, os sonhos têm uma função auto-reguladora, isto é, ajudam a manter o equilíbrio psíquico. Se um indivíduo está com a consciência muito unilateralizada, quando a vida está estagnada, seguindo sempre pelo mesmo caminho, certamente, os sonhos, trarão notícias de aspectos negligenciados da personalidade, potenciais a serem desenvolvidos, que ele próprio não está enxergando. Aí, gradativamente, podemos identificar quais as “saídas” para uma situação de vida. Essa é uma leitura prospectiva do sonho. Aqui devemos ter cuidado para não resvalar em uma compreensão mística ou mágica. Não se trata de adivinhação! Ao compreendermos esses aspectos deixados de lado pela consciência, identificamos, o que no presente está dificultando a vida daquele sonhador, despertando a consciência para o desenvolvimento de novos caminhos e possibilidades.

Então, qual o caminho para compreende-los?

Em primeiro lugar é preciso dizer que compreender um sonho, dentro de uma perspectiva Junguiana não é uma tarefa automática, nem mesmo imediata, isto é, “sonhar com isso quer dizer aquilo”. Não! Sonhar com isso não quer dizer aquilo. Os sonhos não são literais!

Quando recebo um paciente em meu consultório, sempre peço que reserve um bloquinho ou um caderno para anotar seus sonhos, o mais detalhadamente que puder, inclusive com impressões, sensações, sentimentos, lembranças e associações. Isso por si só, já não é um trabalho fácil!

Aos poucos isso se torna um hábito e, de certa forma, abre um canal de comunicação com o inconsciente, o que possibilita, após algum tempo, que o próprio paciente se sinta mais familiarizado com a linguagem dos sonhos.

Em alguns casos, depois de algum tempo, voltamos, ainda, a trabalhar algum aspecto de um sonho que não ficou esgotado!

Sonhos, muitas vezes, podem trazer pacientes para a terapia. Algumas pessoas, procuram ajuda, por terem sonhos recorrentes, ou por terem algum sonho que as impacte muito. Sem muita clareza do que isso quer dizer, mas relacionando com algum momento importante que estejam vivendo, acabam por ter uma impressão de que precisam de ajuda.

Alguns desses sonhos podem estar indicando a necessidade de mudanças, transformações na forma de olhar e viver a vida, etc.

Em fases de transição é comum sonhos em que aparecem pontes ou rios a serem atravessados, bifurcações, encruzilhadas, situações em que o sonhador encontra-se em dúvida sobre qual o caminho a seguir, cenas de conflitos, assim como sonhos de morte e renascimento ou nascimentos.

Entretanto, é importante ressaltar que isso não vale para todas as pessoas. Como disse anteriormente, é preciso contextualizar o sonho!

Muitas vezes, um sonho assustador, pode não estar simbolizando um perigo, mas uma dificuldade do sonhador, relativa a uma questão em um determinado momento.

Um exemplo disso é o de um paciente que sonha que sua casa está sendo invadida por bandidos. Esse sonho pode estar revelando que há conteúdos inconscientes que estão precisando se tornar conscientes, mas que não encontram outra forma senão “invadir”, arrebatar a consciência para serem compreendidos. Quanto mais difícil para o indivíduo aceitar esses momentos, mais perturbadoras podem ser as imagens dos sonhos. É como se o inconsciente “exagerasse” para chamar a atenção da consciência para uma questão a ser resolvida.

Por isso, é sempre bom tratar os sonhos com respeito e sem banalizações!